A plataforma para gerenciar Contêineres de Dados, desenvolver aplicativos nativos em Nuvem e modernizar as cargas legadas de trabalho se solidifica. Para fazer um paralelo com a nave Star Trek, da lendária série de ficção científica criada por Gene Roddenberry, Kubernetes e suas propriedades de Código Aberto une ‘raças concorrentes’ em um objetivo próximo do bem das civilizações…, ou no caso, dos clientes

O nome esquisito, no início, chamou a atenção: Kubernetes. Ainda recente, sua história de sete anos já possui presença de peso no mercado quando se fala em Orquestração de Dados que automatiza, dimensiona e gera aplicações em Contêineres. Nascido e criado no berço do Google, sua história remete à série Jornada nas Estrelas (leia abaixo O início de tudo), mas logo teve sua tutela atrelada à Cloud Native Computing Foundation, organização que reúne gigantes de TI.

Ou seja, Kubernetes se tornou um padrão especialmente em arquiteturas de Platform as a Service, PaaS e de Infrastructure as a Service, IaaS e, como veremos, reúne um bom número de fornecedores com background heterogêneo. Mas o que importa é como ele funciona, como o mercado está se movendo em sua direção. Além disso, como os Canais podem obter dividendos com ele.

Se tornou cada vez mais comum consumir o Kubernetes como um serviço, oferecido por um provedor de Nuvem

O seu alcance – por ser um serviço baseado em Código Aberto a sua disseminação é facilitada – já é interessante, porém ainda existe muito espaço para crescimento, especialmente com a migração para a infraestrutura em Nuvem realizada por muitas companhias em decorrência da pandemia.

Por conta da necessidade do trabalho remoto, trabalho híbrido e da grande demanda por Comércio Eletrônico e outros serviços virtuais, algumas empresas brasileiras estão aproveitando o redesenho de seus ambientes de Nuvem para utilizarem Kubernetes, definido como a forma ideal de otimizar, automatizar e ter mais escala em sua operação por meio deste formato de orquestração de Contêineres. Este modelo mais ágil começa com a tecnologia de Contêineres, que é uma forma de empacotar um aplicativo e todas as suas dependências. E para que seja executado de forma rápida e confiável em diversos tipos de ambientes – seja um laptop ou Data Centers tradicionais e até as Nuvens e Edge – foi criado o Kubernetes.

“O objetivo do Kubernetes é automatizar muitos processos manuais na TI, relacionados com a implantação, gerenciamento e dimensionamento de cargas de trabalho empresariais baseados nesses repositórios como forma de melhor orquestrar os Contêineres”, explica Thiago Araki, diretor de Tecnologia para a América Latina na Red Hat. Atualmente, a companhia é o segundo maior contribuinte deste projeto, sendo que da sua colaboração surgiu o OpenShift, plataforma de Contêineres empresariais.

Kubernetes se tornou padrão especialmente em arquiteturas de PaaS e de IaaS

De acordo com a empresa, o OpenShift é usado por mais de três mil organizações em todo o mundo, incluindo 90% das empresas do índice Fortune 500 e diversas empresas no Brasil. Segundo a empresa de pesquisa Omdia, em um estudo no início deste ano, a Red Hat comanda 47,8% do mercado desta tecnologia.

Outros protagonistas
Até mesmo a Microsoft aderiu e tem uma visão estratégica. “O uso do Kubernetes vai muito além do gerenciamento de Dados. Assim, novas aplicações e atualizações, podem ser implementadas sem a necessidade da busca por períodos de menor pico na operação da empresa. O próprio Kubernetes, em caso de falhas, desfaz todo o processo automaticamente como forma de não interromper os serviços aos clientes internos (funcionários) ou externos (consumidores finais)”, ensina Rodolpho Ugolini, gerente de Marketing da plataforma Azure, que oferece aos clientes o Azure Kubernetes Service, ou AKS.

Entre os clientes, destaque para a Riachuelo na construção do Rchlo+ – espaço de personalização de peças pelos clientes; a Indikatore, que oferece soluções inteligentes de Supply Chain para o Varejo; e a Omnilogic.

Já o Google, ‘pai da criança’, executa todas as suas plataformas, como a divisão Google Cloud, dentro da premissa de Contêineres com o uso de Kubernetes. “Isso ajuda as nossas equipes de desenvolvimento a evoluir rapidamente, implementar software de maneira eficiente e operar em uma escala sem precedentes”, respondeu a assessoria ao nosso pedido de entrevista sobre o tema.

O Google Kubernetes Engine, por exemplo, é considerado peça fundamental para a solução de PIX desenvolvida pela startup Bit Capital. Em seu ambiente da solução, ela conta com 20 clusters com mais de 1,5 mil pods e 250 GB de Dados mensais. Uma estrutura robusta para suportar um serviço que envolve períodos intensos de requisições, como na Black Friday.

Outro caso destacado pela companhia é o da Natura, que usou a plataforma Google Kubernetes Engine para testar ativos em ambientes virtuais a partir de algoritmos customizados pela própria empresa. No modelo, foi criada uma molécula virtual – a partir de uma substância, um ativo real – em ambiente no qual são simuladas as interações que ela pode passar, como variações de temperatura ou contato e absorção com a água.

Existe muito espaço para crescimento, especialmente com a migração para a infraestrutura em Nuvem

Em resumo, empresas de qualquer tamanho e perfil podem fazer uso de Kubernetes. Embora, no início, a maioria das empresas o instalava em seus Data Centers. Mas como se tornou cada vez mais comum consumir o Kubernetes como um serviço, oferecido por um provedor de Nuvem, ele ficou aderente a todos; permitindo que empresas com menor capacidade computacional ou recursos internos para operar esse tipo de tecnologia também possam se beneficiar da tecnologia de Contêineres.

Nuvem, a fronteira inicial
É fácil achar startups e empresas nativas em Nuvem que já embarquem de forma direta no uso de Kubernetes. Um exemplo é a Sky.One Solutions. “Todos os novos produtos já nascem visando a implementação em Contêiner e em Kubernetes. Um dos principais casos de uso é nosso sistema multi-cloud que é gerenciado pelo Kubernetes e temos a mesma aplicação rodando em mais de uma Cloud de forma rápida e fácil”, aponta Rennan Sanchez, co-fundador e CTO da Sky.One Solutions.

Quase que todas as empresas de tecnologia estão se envolvendo com o Kubernetes de uma forma ou de outra. Os desenvolvedores, por exemplo, no seu dia a dia, já que se torna mais simples e com menos possibilidade de falhas. Para os integradores e prestadores de serviço, o Kubernetes se transformou na solução mais completa que existe atualmente no mercado para a orquestração de Contêineres.

Por ser uma solução de Código Aberto, conta com um ecossistema de profissionais e empresas que visam a utilizá-la e aprimorá-la como forma de apoiar a inovação no mercado e, assim, o Kubernetes segue avançando até outras fronteiras.

A Microsoft, por exemplo, conta com um ecossistema de 25 mil parceiros apenas no Brasil. “Cada parceiro conta com serviços e soluções que são de sua especialidade e com equipe altamente qualificada que não só fazem a venda, como todo o entendimento do negócio e das suas necessidades em infraestrutura, realizam o desenho junto aos times, o processo de implantação, a capacitação dos próprios clientes, bem como o suporte das tecnologias”, entusiasma-se Danni Mnitentag, vice-presidente de Parceiros e Canais da Microsoft Brasil. Os parceiros ajudam a levar a ideia do AKS ao mercado.

Contêineres será a escolha padrão para 75% dos novos aplicativos empresariais em 2024

Como perfil, o Canal da Microsoft tem um forte componente de investimento em qualificação e capacidade técnica de seus profissionais, atuando do momento da venda das soluções até a implementação, manutenção e gerenciamento dos workloads e serviços acoplados ao Azure. Ao todo, foram realizados mais de três milhões de treinamentos e entregues mais de 96 mil certificações dentro do programa de parceiros, o Microsoft Partner Network.

Explorando possibilidades
Concorrente direta, a Red Hat contabiliza mais de mil Canais que podem vender e implementar suas soluções. Em tecnologias como o Openshift, os parceiros foram treinados e entendem como identificar a necessidade de implementar a solução nos clientes atuais e futuros. “Todos foram treinados com cursos e workshops, de todo o modelo que temos dentro da área de Canais, e sabem preparar uma arquitetura para incorporar a parte de Kubernetes e Contêineres, oferecendo essa possibilidade e agregando valor aos clientes”, explica Sandra Vaz, diretora sênior de Alianças e Canais para a América Latina na Red Hat.

A companhia, assim como o mercado de forma geral, tem vários perfis de Canais em seu ecossistema. E os classifica nas categorias Premier, Advanced e Ready. Para atingir a cada uma delas, os parceiros passam por uma série de treinamentos com especialistas. Como complemento, existe um time gerenciado pelos executivos da companhia, chamados de Partners Alliances Managers, que apoiam os clientes na construção de um plano de negócios, unindo as expectativas do parceiro e da Red Hat.

Esse investimento contempla uma agenda de treinamentos digitais e presenciais, que serve para acompanhar de perto a certificação e a evolução de cada parceiro. Eles passam por treinamentos para que possam vender não só as subscrições, mas também os serviços. “A ideia é preparar a equipe dos Canais para que tenham um perfil de venda consultiva, entendam a necessidade do negócio do cliente, sua infraestrutura em Nuvem e, ainda, conheçam todas as tendências tecnológicas para apoiá-lo em sua evolução para multicloud”, completa Sandra.

♦ Distribuidores indo além
Essa jornada também envolve os distribuidores, especialmente os que operam fortemente com parceiros de integração. Eles querem conquistar seu espaço nesse cenário dos Kubernetes. “Mesmo com muita adoção, ainda é uma tecnologia que as empresas estão conhecendo e acelerando nos projetos e na utilização. Principalmente as que vêm de um ambiente legado, com aplicações rodando no modelo tradicional”, pondera Álvaro Rezende, Latam Platform & Services Owner da TD Synnex para a América Latina e Caribe, que comercializa as plataformas Azure, Amazon e IBM, entre outras.

Como estratégia, o executivo explica que os engenheiros e arquitetos da distribuidora possuem conhecimento para que, ao encontrar uma oportunidade de negócio, possam identificar e ofertar os benefícios do Kubernetes para o cliente e os parceiros. “O motor de projetos hoje é a modernização de aplicações e a alocação dos sistemas na Nuvem. É muito comum o desafio de mover aquela aplicação legada”, admite.

Em menos de três anos esse mercado deverá saltar de US$ 465,8 milhões para US$ 944 milhões

E puxa a ‘brasa’ para o papel dos Canais no processo. “Os parceiros são a peça-chave para uma experiência de sucesso dos clientes finais no uso de tecnologia. O cliente espera suporte e apoio do parceiro na sua jornada de transformação digital, em especial com tantos temas em tecnologia de forma simultânea”, garante. Em resumo, o Canal deve ocupar o papel de consultor do cliente e entregar uma oferta moderna, com alta disponibilidade e ótimo custo-benefício.

Para auxiliar os Canais, a TD Synnex realiza constantemente webinars para compartilhar o conhecimento com os parceiros. E disponibiliza diversos treinamentos no K.NOW! – plataforma oficial de ensino da distribuidora -, e sem custo.

A distribuidora Pars tem enfatizado junto aos seus parceiros de negócio a educação do mercado, demonstrando os benefícios da tecnologia por meio de treinamentos e workshops. Mantém o foco em demonstrar as soluções, seus benefícios e, em um segundo momento, direciona para uma abordagem mais técnica, para que as empresas entendam como a ferramenta funciona e qual a infraestrutura necessária para suportá-la.

“Temos cases no ramo financeiro, o último, inclusive com o PIX. A tecnologia de um de nossos parceiros tem capacidade de suportar 2,5 mil transações do PIX a cada quatro segundos. Muita gente acha que o PIX é somente enviar e receber dinheiro, porém existe toda uma gama de soluções, capaz de suportar o volume dessas transações”, argumenta Raphael Militino, arquiteto de Soluções da Pars.

O papel dos Canais da Pars é levar o que existe de novo no mercado para os seus clientes finais, tendo a distribuidora como um braço de apoio nesse processo, seja tanto na venda como na capacitação do próprio Canal. Os parceiros que não possuem estrutura de marketing ou de pré-venda têm apoio para que possam capturar e entregar o melhor projeto para o cliente final. “Nosso Canal precisa ter um conhecimento mínimo da plataforma e participar de treinamentos oferecidos pelos fornecedores”, relembra.

O futuro, a fronteira final
Com os avanços rápidos, fruto da maior maturidade e o envolvimento de muitas empresas no desenvolvimento dos Kubernetes, atualmente quase qualquer tipo de carga de trabalho é indicado para ele, incluindo aplicativos tradicionais, Bancos de Dados e até Big Data e Machine Learning.

Por outro lado, alguns tipos de sistemas – os grandes aplicativos monolíticos como ERPs e CRMs -, embora possam funcionar no Kubernetes, normalmente não extraem tantos benefícios, pois são sistemas que não escalam bem sob demanda e muitas vezes nem precisam ser portáveis entre ambientes.

Mas o que esperar para 2022 e além? “A cada dia surgem novas ferramentas que ajudam na administração de clusters de Kubernetes, então podemos esperar no próximo ano ou em 2023 a melhoria do dashboard nativo do Kubernetes e o investimento cada vez mais massivo dos provedores de Cloud para prover um serviço cada vez melhor”, projeta Sanchez, da Sky.One Solutions.

Porém, fazer previsões no mundo da tecnologia pode ser difícil, especialmente no médio prazo. “É plausível prever que a adoção de Contêineres e Kubernetes só irá aumentar. O grande driver são as iniciativas de transformação digital nas empresas, que estão colocando o desenvolvimento de aplicativos no centro da estratégia de TI e de negócios”, aponta Araki, da Red Hat.

Quanto a projeções, de acordo com o Gartner, os Contêineres se tornarão a escolha padrão para 75% dos novos aplicativos empresariais em 2024. Ou seja, três em cada quatro grandes empresas em economias maduras usarão Contêineres em produção, contra menos de 35% atualmente. Algo como mais que dobrar o mercado em menos de três anos, saltando de US$ 465,8 milhões para US$ 944 milhões. É possível imaginar uma continuação rica desta história.

♦ O início de tudo
A história oficial é sempre contada pelos vencedores, nunca pelos vencidos. Logo, a história é sempre repleta de heroísmo e esforço ou de reforço da sua própria trajetória.

O que se sabe é que o codinome original para Kubernetes dentro do Google era ‘Project Seven’, provavelmente uma referência ao personagem da série de ficção científica Jornada nas Estrelas, Sete de Nove, que é um Borg, ou um indivíduo de uma pseudo-espécie de organismos cibernéticos mostrados no universo ficcional.

Assim, os sete raios do timão no logotipo do Kubernetes seriam uma referência ao tal codinome. Uma outra fonte diz que Kubernete é timão em grego, mas não encontramos nada que prove isso.

O certo é que a primeira versão do Kubernetes foi lançada em 21 de julho de 2015. E, em paralelo ao lançamento, o Google em parceria com a Linux Foundation criou a Cloud Native Computing Foundation Cncf, para oferecer a tecnologia ao mercado de forma mais abrangente e como plataforma aberta.

♦ E lá vem outra história
Na década passada, diversas tecnologias de Orquestração de Contêineres competiam com o Kubernetes, entre elas: Mesos, Docker Swarm e Cloud Foundry. Entretanto, devido a sua capacidade, popularidade e a criação da Cloud Native Computing Foundation, Kubernetes acabou se tornando o padrão de fato para o gerenciamento dos repositórios.

Atualmente, dezenas de fornecedores de tecnologia e provedores de Nuvem possuem ofertas baseadas neste projeto e fornecem soluções certificadas ou complementares ao Kubernetes, que é o segundo projeto de Código Aberto de crescimento mais rápido da história, atrás apenas do Linux.

 

Onde a notícia foi publicada:

Fonte: https://inforchannel.com.br/2021/10/25/kubernetes-rumo-a-nuvem/